Criança pode fazer musculação? Parte 1
Treinamento de força é a terminologia utilizada para denotar um tipo de exercício que objetiva o aumento da força muscular. Para o treinamento desta capacidade física, geralmente utilizam-se halteres, bolas medicinais, máquinas, elásticos, o próprio peso corporal, entre outros ¹⁰ . Neste contexto, a musculação apresenta-se como uma opção de fácil acesso, baixo custo, e segurança para a saúde da criança e adolescente.
Entretanto a literatura científica aponta em direção oposta. Evidências sugerem que um treinamento adequado e corretamente prescrito em suas componentes de carga -intensidade, volume, frequência, pausa, etc- não apresenta riscos ou efeitos negativos no crescimento ósseo da criança e adolescente ¹ ² ³ ⁴ ⁵, mas ao contrário, parece trazer benefícios e incremento de força nesta população.
Mitos
Alguns mitos do treinamento de força para crianças, sobretudo pré-puberes, são levantados pela AAP (American Academy Pediatrician):
Mito 1: O treinamento de força atrapalha o crescimento
O treinamento de força comumente é associado a problemas de crescimento de crianças por meio de dano no sistema esquelético, especificamente na epífise. A epífise refere-se a uma ossificação diferente na extremidade de um osso longo, separada por uma camada de cartilagem (fise), conhecida como cartilagem de crescimento. Supõem-se que o exercício com pesos, seja na musculação ou em outras modalidades, provoque danos nestas estruturas, prejudicando o crescimento saudável da criança.,Entretanto a literatura científica aponta em direção oposta. Evidências sugerem que um treinamento adequado e corretamente prescrito em suas componentes de carga -intensidade, volume, frequência, pausa, etc- não apresenta riscos ou efeitos negativos no crescimento ósseo da criança e adolescente ¹ ² ³ ⁴ ⁵, mas ao contrário, parece trazer benefícios e incremento de força nesta população.
Inclusive há a recomendação para crianças que praticam esportes, realizar o treinamento de força como forma de reduzir o risco a lesões¹ ⁶. Contudo, aparentemente ações explosivas como treinamento de saltos de plataformas, movimentos específicos em esportes e, até mesmo, treinamento de força com ações explosivas, associa-se a um risco maior de fraturas antes da maturação óssea⁷ ⁸.
Uma criança ou adolescente, em idade adequada para o tipo de exercício proposto pelo profissional capacitado, em ambiente controlado, com objetivo primário de desenvolvimento da técnica do exercício e com progressão de carga ajustada, não correria menor risco de lesão óssea do que outro sedentário com mochilas escolares pesadas? Ou praticando esportes com impacto uni podal como quedas de uma perna no voleibol ou basquetebol? Fica para reflexão.
Mito 2: Criança não aumenta força antes da puberdade
A literatura aponta dois mecanismos para o o desenvolvimento da força: mecanismos neurais e morfológicos. Os mecanismos neurais são os principais responsáveis pelo incremento da força em crianças e adolescentes¹⁰, uma vez que os pré-puberes ainda não apresentam substancial concentração de hormônios androgênios, fundamentais para o desenvolvimento da massa muscular e por conseguinte, a força.
Assim, a musculação é capaz de desenvolver a força em crianças e adolescentes antes da puberdade, contudo por predominância de mecanismos neurais como maior recrutamento de unidades motoras ⁹, e coordenação intra e inter muscular e por exemplo. A hipertrofia torna-se proeminente a partir do pico de velocidade de crescimento, onde hormônios importantes para esta finalidade aumentam sua concentração.
Mito 3: Treinamento de força reduz capacidade aeróbica
O treinamento de força combinado com o exercício aeróbico, ou treinamento concorrente, parece não se correlacionar à diminuição de uma ou outra capacidade (força e capacidade aeróbica). Contrariamente, a combinação dos exercícios mostra-se efetivo para o desenvolvimento aeróbico¹¹, sem prejuízo nos ganhos de força, e apontada como estratégia de maior benefício para crianças ¹².
Final da parte 1
Na parte II, finalizo os mitos associados ao treinamento de força em crianças e adolescentes, assim como as recomendações para prescrição de uma carga de treinamento adequada.
Referências
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