Criança pode fazer musculação? Parte 3 - Capacidade aeróbica, termorregulação e faixas etárias

1 Contextualização

Fonte Pixabay (imagem livre)
Na primeira e segunda parte desta série abordaram-se os principais mitos relacionados ao treinamento de musculação para crianças e adolescentes, e referências para profissionais de educação física na elaboração de um programa de treino.

Nesta terceira e última parte, serão abordadas:

- características da fisiologia do exercício da criança e adolescente, com objetivo de adicionar informação à respeito da temática. 

- Também fecharemos a série com a discussão sobre a faixa etária mínima para o trabalho de força na musculação.



2 Capacidade aeróbica e crianças

1. A criança apresenta pouca economia de corrida, e isto explica porque - mesmo com um VO2/kg/min semelhante ou superior ao de adultos - a criança não tem o mesmo desempenho. A economia de corrida melhora de forma considerável dos 10 aos 18 nos de idade ¹

2. Crianças necessitam entre 20 a 30% a mais de oxigênio por unidade de peso corporal para correr em uma determinada velocidade ². Modelos de predição de gasto energéticos não levam em conta o gasto energético maiores e mutáveis de crianças ³.

3. Crianças possuem reservas de glicogênio menores ¹. Analisando as implicações para o treinamento de força, sessões longas ou muito intensas, podem ser desencadeadoras de uma fadiga mais aumentada nesta população. 

4. Adaptações ao treinamento aeróbico como volume sistólico aumentado, alterações morfológicas no coração, e braquicardia em repouso, também são observadas em crianças pré-púberes   . Assim, o treinamento aeróbico sistematizado pode ser benéfico para diversas modificações centrais e periféricas.

5. Treinamento de força após o treinamento aeróbico, parece estimular uma maior biogênese mitocondrial quando comparado com apenas o treinamento aeróbico isolado . Este estudo comparou uma sessão de 1h de exercício aeróbico a 65% VOmáx, com uma sessão com o mesmo aeróbico, mas seguido de um treino de 6 séries de flexão de pernas a 80% 1RM.

6. Treinamento aeróbico para crianças com asma, aprimora o VO2máx, e suprime sintomas ¹.

2.1 Termorregulação em crianças

1.  As crianças possuem mais glândulas sudoríparas ativadas pelo calor por unidade de área cutânea ⁶ ⁷. Entretanto as respostas sudoríparas são reduzidas nesta população, e isto se deve a uma menor maturidade dos mecanismos . Deste modo, durante um estresse em ambiente quente, crianças apresentam temperaturas corporais mais altas quando comparadas com adultos e adolescentes.

2. Além disto, seu suor apresenta maiores concentrações de sódio e cloreto, enquanto menores presenças de lactato, H+ e potássio. Em termos práticos, menores intensidades são demandadas para crianças em ambientes quentes. 

3. Crianças demoraram mais tempo para se adaptar ao calor do que idosos ¹. 

4. No frio, crianças encontram um ambiente estressante para sua fisiologia. A razão entre m²/kg (área corporal por massa) contribui para perda de calor em ambiente quente, contudo esta mesma vantagem revela-se desvantajosa no frio ¹. Para compensar esta perda acentuada de calor, uma taxa metabólica mais aumentada, e uma vasoconstrição periférica de maior magnitude são demandadas ⁹.  

3 Faixas etárias para prática de musculação

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A literatura ¹ aponta que o termo idade adequada pode e deve ser acompanhado de informações como competência técnica específica na execução de exercícios com pesos, tempo que o aluno tem de experiência na atividade ou similares, e até a maturidade emocional do praticante. 

A luz desta ideia, a interpretação da faixa etária não deveria restringir-se somente a idade em si, mas também fatores que interferem nesta prática, como os citados. Como exemplo, uma menina de 10 anos de idade que iniciou em um programa de treino perfeitamente adequado, ajustado e supervisionado, talvez tenha 3 anos de experiência neste tipo de atividade, enquanto um adolescente sedentário de 14 anos, que inicia agora a mesma modalidade de musculação tem 0 anos de experiência. 

Portanto, a idade deve ser pensada conjuntamente dos fatores supracitados, e não somente uma questão cronológica. Assim, segue abaixo uma proposta temporal de um programa de exercícios "resistidos" para diferentes faixas etárias ¹¹:

7 anos ou menos: O foco deverá ser na técnica, com pouco ou nenhum peso, elaborando junto ao aluno o conceito básico dos exercícios. A calistenia é uma opção interessante, assim como colegas no treino. Recomenda-se manter então intensidade e volume baixo.

8 a 10 anos: Manter os exercícios simples, aumento gradual do volume de exercícios e séries. Prática da técnica e início de uma progressão gradual de intensidade. Importante o monitoramento da tolerância ao exercício.

11 a 13 anos: A técnica ainda é o elemento central, e continua-se o aumento gradual da intensidade. Introdução de exercícios mais avançados com pouco ou nenhum peso.

14 a 15 anos: Programas mais avançados para jovens, podendo incluir elementos específicos dos esportes. Aumento graduação do volume.

16 anos ou mais: Introdução a programas de adultos, supondo aqui conhecimento e experiência de treinamento desenvolvidos.

# De forma geral, e aqui encontra-se a opinião e experiência do autor dos textos, a utilização de máquinas seguras e estáveis no início do praticante, sem experiência, tende a ser adequado, uma vez que é possível trabalhar com pesos muito baixos, mantendo estabilidade nas articulações relacionadas ao movimento, e com o aparelho "guiando" a execução do praticante. 

Um legpress, por exemplo, com intensidade abaixo de 30% de 1RM, oferece a oportunidade de aprendizado do movimento, assim como observação das dinâmicas da articulação do joelho (valgo ou varo dinâmico). Portanto, cada caso é particular, e sobretudo a capacitação do professor de educação física é imprescindível. #

4 Conclusão

O treinamento de força, sobretudo utilizando musculação para crianças e adolescentes, apresenta-se como uma modalidade que, como as demais, apresenta riscos esqueléticos e térmicos, caso não seja supervisionadas e perfeitamente adequadas para o praticante. 

Entretanto, um programa de treinamento supervisionado por um profissional competente de educação física, ajustado ao nível e características da criança e adolescente que o pratica, apresenta-se como uma modalidade segura e que traz benefícios à saúde musculo esquelética, metabólica, e quando combinada com exercício aeróbico, à saúde aeróbica da criança. 

Portanto, com base em todas discussão e literatura apresentada nestas três partes, é pertinente dizer que a musculação é recomendada e segura para crianças e adolescentes, desde que os cuidados citados sejam levados em consideração.

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5 Referências

1. McArdle, William D. Fisiologia do exercício | Nutrição, energia e desempenho humano / William D. McArdle, Frank I. Katch, Victor L. Katch; Revisão técnica Fábio C. Prosdócimi; Tradução Dilza Balteiro Pereira de Campos, Patricia Lydie Voeux. – 8. ed. – Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2016. il. Tradução de: Exercise physiology: nutrition, energy, and human performance ISBN 978-85-277-3015-0

2. Ariëns GA, et al. The longitudinal development of running economy in males and females aged between 13 and 27 years: The Amsterdam Growth and Health Study. Eur J Appl Physiol 1997;76:214.

3. Jones BH, et al. Energy cost of walking and running in boots and shoes. Ergonomics 1984;27:895

4. Persinger RC, et al. Consistency of the talk test for exercise prescription. Med Sci Sports Exerc 2004;36:1632.

5. Wang L et al. Resistance exercise enhances the molecular signaling of mitochondrial biogenesis induced by endurance exercise in human skeletal muscle. J Appl Physiol 2011;111:1335.

6. Bittel JHM, et al. Physical fitness and thermoregulatory reactions in a cold environment. J Appl Physiol 1988;65:1984.

7.. Febbraio MA, et al. Muscle metabolism during exercise and heat stress in trained men: effect of acclimatization. J Appl Physiol 1994;76:589.

8. 128. Tikuisis P, et al. Physiological responses of exercise‑fatigued individuals exposed to wet‑cold conditions. J Appl Physiol1999;86:1319.

9. Watson G, et al. Influence of diuretic‑induced dehydration on competitive sprint and power performance. Med Sci Sports Exerc 2005;37:1168.

10. 1. Stricker PR, Faigenbaum AD, McCambridge TM, AAP COUNCIL ON SPORTS MEDICINE AND FITNESS. Resistance Training for Children and Adolescents. Pediatrics.

11. Kraemer WJ, Fleck SJ. Strength training for young athletes. Champaign, IL: Human Kinetics, 1993. 2020;145(6):e20201011

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